Matias Monteiro (1980)

Matias Monteiro (Brasília - 1980) fez sua primeira exposição individual em 1984 em um pequeno apartamento na rua Saint Marc, Montreal, Canadá. Seus pais emolduraram seus desenhos e os expuseram na sala de estar, mas, afoitos, terminaram pendurando-os de cabeça para baixo. Matias pendura seus próprios desenhos desde então. Hoje, é mestre em Poéticas Contemporâneas (2008) e Bacharel em Artes Plásticas (2004) pelo Instituto de Artes da Universidade de Brasília. Atualmente é graduando em Museologia pela UnB.





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Rascunho sobre branco

fale sobre o branco
sua paisagem inconstância e brilho
de sinos cheiros e esperanças
fale sobre o dia
a noite noite e dia sobre essa mesa de pureza
e minudência fria dos elementos que desejo
fale sobre o negro
oculto negro sob o ser
de ser mais do que se vê e sente
fale sobre você
você que não imagina mas que diz
eu mesmo


[desenho de matias monteiro, 2010]

Peça da Montanha










Peça da Montanha
Instalação de Luciana Paiva e Matias Monteiro
2009
/
Paisagem simples

His self and the sun are one
And his poems, although makings of himself
Were no less makings of the sun.
[Wallace Stevens, The planet on the table]
/
O que o papel permite
a leveza eterna do possível
a criação suspensa
o vazio
claro da luz
a superfície suprema que matiza
a quimera louca dos sentidos.
/
O que o papel sentido permite
o parentesco do branco com a parede
e o vento consagrado
em redes de sonho e línguas de sombra
e de infinito contido
/
o que o papel permite
não permite
que a atenção se desorganize
e que nosso corpo não se atire
na paisagem aprimorada e sentida
que só o engenho raro e simples
de Luciana Paiva e Matias
poderiam de fato permitir.
/
E. Assis. Agosto de 2009

...




palavras-constelações

(Apollinaire)

des-astreo


distanciamento das estrelas. e, no entanto, talvez tenhamos surgido de um pequeno


desastre fortuito, uma colisão entre astros.
(mas, acaso as palavras sejam "casinhas com porão e sótão"
constelações-residenciais onde gostaríamos de viver.)


Luciana Paiva


reverberações zoo-utópicas




Na mala, dinheiro não.

Mas a graça do mascate.
As cores da brincadeira.
A brincadeira.
O espírito descansado.
Colírios coloridos em cinco frascos.

Na mala, dinheiro não.

(Celso Adolfo)

uma boa forma de começar o ano...

Insônia de Glaura... (quem quiser mais é só procurar o tempestade em céu azul, no fimzinho da página... eu recomendo...)

Canção de ninar*

Entre o sono e o estar acordado
Penso frases que me são caras
Jamais irei reproduzi-las tal qual se processam em mim
Porém, se as ouço apenas e não escrevo
Uma insônia absurda toma a mim o sonho desejado
Da cama à caderneta, o que se perdeu?
O pensamento mais ágil do que os dedos
Uma laranja para a digestão
Amor embalado por uma canção de jazz
O menino dorme

-------* para Matias Monteiro, às 5h da matina

Tempo para jogar




Marina Luise

É preciso ter tempo para ver os rostos e a paisagem. Para se evidenciarem a força e a atmosfera que deles emanam. O drama interior das pessoas, a serenidade dos lugares. Tudo aquilo que não se estampa de imediato.
- Nelson Brissac Peixoto – “Ver o Invisível, A Ética das Imagens”


Poderia classificar como indiferente minha primeira experiência com as centenas de casinhas de brinquedo dispostas regularmente sobre uma parede. O interesse que me despertaram foi o suficiente para eu apenas ir a seu encontro checar do que se tratavam aqueles pontinhos vistos à distância. “Ah, são casinhas...”, pensei, e me contentei em relacioná-las ao restante daquela exposição – trabalhos todos de Matias Monteiro, que faziam uma clara referência à infância e eram permeados por uma tensão psicológica. Após tal conclusão medíocre, eu já podia ir embora.
Cerca de um ano depois, trabalhando como mediadora em uma galeria, me deparo com a mesma obra. A exposição se chamava Brasília: Projetos e Fragmentos, e a instalação intitulada Auto-paisagem (como casa) agora me obrigava a olhá-la com mais acuidade, em decorrência da própria função que me era atribuída naquele espaço. O fato de eu passar momentos de todos os meus dias em frente àquele trabalho, conversando a seu respeito com as mais diferentes pessoas, permitiu-me perceber o quanto a minha pressa (ou minha ingenuidade) o havia subestimado anteriormente. Auto-paisagem (como casa), em sua aparente simplicidade, se apresentava agora como um trabalho de grande riqueza. As casinhas são de brinquedo, que memórias elas resgatam? Quais as sensações provocadas pelo modo como estão dispostas na parede? Essa configuração pode ser chamada de “cidade”? Se mudarmos nosso posicionamento, a obra se modifica? E como é essa questão dos pontos de vista? De que modo ela se relaciona com o tema “Brasília”? Esses são apenas alguns poucos exemplos de discussões que o trabalho foi capaz de gerar ao longo de aproximadamente dois meses em que esteve exposto pela segunda vez.
E comprovando mais uma vez sua qualidade enquanto obra de arte, Auto-paisagem (como casa) surge à minha frente em um terceiro contexto, na exposição Play rePlay, se mostrando capaz de ainda suscitar questões inteiramente novas. Desta vez, me ative a pensar a respeito de título da obra. “Auto- paisagem” faz uma clara referência ao auto-retrato, implicando em um interessante deslocamento: como criar uma paisagem de si próprio? O que estaria contido na paisagem que faz referência ao retrato do artista?
A respeito da aparição do rosto na paisagem, Nelson Brissac Peixoto comenta as observações de Walter Benjamin acerca do cinema russo: “Homens que não pretendiam chegar à posteridade pelas fotografias e por isso mesmo, transportavam para as imagens todo o seu mundo cotidiano” [1]. Matias Monteiro também se utiliza da paisagem para remeter a um retrato que, se nessa obra fosse utilizado literalmente, suprimiria vários aspectos que só se dão por meio da sugestão [2].
Ainda segundo Brissac, observamos uma velocidade que condiciona as imagens contemporâneas (o autor se refere a fotografias), quase como uma ausência de tempo. O retratista e o paisagista, ao contrário do repórter e do fotógrafo de guerra, andariam com a calma e a paciência de aguardarem o momento certo da captação do sublime [3]. Sendo assim, havia uma mudança de papéis em minha relação com a obra de Matias: se o retrato de antigamente era condicionado à demorada imobilidade para que se revelassem todas suas sutilezas [4], agora era o observador – eu, no caso - quem deveria se submeter a uma longa pausa para que estivesse capacitado a enxergar os detalhes contidos na obra. Após ter sido condicionada a tanto tempo de observação de Auto-paisagem (como casa), em três diferentes exposições, aquela instalação passara a me revelar muito do que antes me era ausente.
E então a obra de Matias se tornou, a meus olhos, infinitamente prazerosa. Foi o prazer advindo de um jogo para o qual me convidaram as pecinhas presas na parede – esse, tão característico da arte, no qual cabe ao artista a função de inserir determinados elementos, enquanto o observador, a partir deles, está incumbido de levantar discussões. Auto-paisagem (como casa) fez-me crer que a boa obra de arte não esgota em discussões, porém está completamente dependente do bom fruidor – aquele que dispõe de tempo para jogar.

NOTAS
[1] N. Brissac Peixoto, Ver o Invisível, A Ética das Imagens, p. 303.
[2] J.L. Borges, “La Metáfora”, em Arte Poética, Seis Conferências, pp. 47-8.
[3] N. Brissac Peixoto, Ver o Invisível, A Ética das Imagens, p. 304.
[4] Ibidem, p. 303

re-trato II- o coelho omitido. Escultura/ 2006

“As casas não são feitas só de tijolos e materiais de construção. Lembro que já vi casas com teto de lençol e muros de travesseiros. Casas de papel, casas de linha e cor. Já vi meninos que moravam dentro de um único casaquinho vermelho. Um casaquinho que virou um gesto. Um gesto que virou um caminho e um caminho que criou perninhas e começou a andar sozinho”

Sobre re-tratos e lembranças que também são minhas.
Luciana Paiva
Cadáveres Semânticos. 2005/ instalação


a cama em sua carne

Então, uma cama atravessada por uma viga de concreto. Da cama, a cabeceira escura e sóbria. Da colcha branca, fina, quase poeira, a limpeza, a imaculação. A viga segura a cama em seu lugar junto à parede.
Entretanto, se uma cama, amantes, com certeza. Penso o que devem ter sentido estes amantes, esta viga descida do teto, tal qual um meteoro estranhamento geométrico – será? – ou nascida do chão de um apartamento semelhante a uma árvore: sem remorsos, sem arrependimentos ou hesitações, convicta de sua direção – o alto – sob a cama. Me pergunto então o que sentiram estes amantes: alívio diante desta separação definitiva na forma de um metro por um metro de concreto? Ou horror, surpresa, dor, enquanto a viga rasgava suas carnes fantasmas?Porque se trata, enfim, de amantes fantasmas, de um sangue ralo e espectral que não mancha a cama, de tendões e ossos de poeira que não ficaram presos na viga. Acho que se evaporaram. Acho que seus órgãos fantasmas se desfizeram, calmamente, docilmente, num adeus sem assombro. Talvez o que tenha finalmente morrido seja sua memória de fantasmas, que dormia naquela cama.
A cama mesma atravessada pela viga. Em sua existência prosaica de cama, em suas carnes.Eu sou uma pessoa das palavras (elas me possuem, sem escapatória). Mas me percebo devastada pelo impacto da imagem. À sua grandiosidade. Mesmo que esta grandiosidade me perca no momento exato do aprisionamento – me perca deste pertencimento até então inequívoco às palavras (que não é um pertencimento tranqüilo, mas é sempre uma garantia).‘Incomunicabilidade”… Este é um nome grande. Se não é comunicação, se não é troca, alguma coisa deve ser. Não pode não ser não nada. Podemos dizer que é, então, um transporte, um deslocamento. Um arremesso através do espaço. Um ato de lançar para longe de si, com certo asco. Mais Proust: diz Deleuze que os signos da arte são superiores à filosofia. A filosofia se apóia numa certa boa-vontade de pensamento, numa disposição consciente para a reflexão. A arte, não. Trata-se de uma imposição, não há escolha, não há escapatória, linha de fuga ou rota de saída. Não há portas de emergência.
Vendo, então, sua obra, me aconteceu um certo milagre. Minha memória de exposições, mostras, instalações é feita, essencialmente, de sensações de sufocamento, de falta de ar (não há rotas de fuga), uma certa paranóia em relação à esta ou aquela obra que quer me invadir.
Mas, então, eis que este movimento sofre uma inversão: se torna atração, magnetismo, tragagem. A mesmo força que expelia, seduz até a hipnose, o movimento de lançar para fora, quer trazer para dentro. Não houve esgotamento: eu poderia ficar horas e horas olhando para aquela cama e pensando naqueles amantes. Mesmo com tanto livros ao meu redor, eu só poderia olhar para aquela cama dilacerada.


Ana Janaina Souza
Você (objetos siameses)/ 2004.


Caro leitor, isso não é deriva, mas uma um surto espaço-temporal. Surto eu. Surtara você ao ver o garfo do Matias Monteiro ou então ao querer usar seus óculos? Se sim, concordará em que há neles um estranhamento que acena, que quase se ergue como ameaça a realizar-se, quase torna seus objetos animados e duplicados. (...)
Se o objeto dos sentidos (seja um garfo, um óculos ou um tênis) se oferece à sensibilidade duplamente, de modo absurdo e abusivo, há uma solução para senti-lo e outra para rejeitá-lo: hum) a solução para negá-lo é o abrigo da cultura, dizê-lo absurdo para não causar vexame; dois) a solução para senti-lo é oculta: duplicar também os sentidos, dobrar a sensibilidade kantiana e admitir, assim, o romper dos prazeres e das mortes.
Se aceitamos, secretamente, a segunda solução, duplicamos também, secretamente, os órgãos dos sentidos. Somos Narcisos monstruosos, receptivos a tudo. Surtamos espaço-temporalmente, admitimos o espaço como tempo-espaço. Surge em nós o corpo verdadeiro, que é o corpo erótico, onde ocorrem "a priori" todas as possibilidades. Não é mais um corpo desejante: para ele existe a fruição e o prazer da morte (sem pesares).

Allan de Lana, Estética Heimlich Transcendental