a grande espera...
A ruína parece configurar o avesso do estado apreensivo da espera; ou, antes, uma espécie de espera resignada. A ruína é ativa renúncia, vagarosa e obstinada. Nossa vida adquire repentinamente uma profundidade geológica (como propôs Nuno Ramos) e esperar torna-se não mais motivo de excitação, mas uma experiência do próprio desamparo do tempo.
As ruínas de uma selvageria doméstica em Tarkovsky, as rachaduras como indício de uma fratura subjetiva em Polanski; Um atentado naturante é ensaiado em cada fresta no concreto ou pavimento, em cada espaço legado por um relapso humano. A raiz des-sedimenta a via (não há aí ressentimentos).
A Grande Espera, opera uma série de recortes espaciais e temporais (o fio do desejo que enlaça todos os tempos). A Galeria/Espaço Doméstico, O Espaço Doméstico/ Vegetação externa e rasteira. Não se trata propriamente de um paisagismo fortuito, ou uma alegoria botânica, mas de uma abdicação, de um espaço que se faz abandonar e de uma espera que se converte na retomada de um outro tempo, que não é o da expectativa, mas do abandono.
Carl André suspenso sobre pilotis. O universo flutua vagaroso.
2010
Peça da Montanha



His self and the sun are one
And his poems, although makings of himself
Were no less makings of the sun.
[Wallace Stevens, The planet on the table]
a leveza eterna do possível
a criação suspensa
o vazio
claro da luz
a superfície suprema que matiza
a quimera louca dos sentidos.
o parentesco do branco com a parede
e o vento consagrado
em redes de sonho e línguas de sombra
e de infinito contido
não permite
que a atenção se desorganize
e que nosso corpo não se atire
na paisagem aprimorada e sentida
que só o engenho raro e simples
de Luciana Paiva e Matias
poderiam de fato permitir.
outono das verdades

precariedade que prevalece no mundo,
e o mundo cabe em um canto,
alheio a toda brutalidade branca,
na proporção da forma humana
sempre solícito,
sujeito a toda queda,
alhures
onde as verdades já não se sustentam mais
hoje, outono em mim.
A Vostok renova assim o sonho do sobrevôo; a visão do viajante de pés-alados, que contempla do alto seu próprio lar. Gagarin redime a máquina. Em seu vôo, movido a guerra fria, fruto da engenhosidade técnica e aparto soviético, se vê momentaneamente sobrevoando o mundo. Um mundo. Não há aí nenhum pequeno ou grande passo... nem homem nem humanidade... há apenas Gagarin que se percebe frágil; que inadvertidamente se espanta com a beleza leve de seu mundo, que de perto lhe parece tão denso e, uma vez conclamado a descrevê-lo, só é capaz de atribuir-lhe uma cor. Azul, azul.
Gagarin é o sonho do cartógrafo: é Ícaro feliz, pois aprendeu a cair “com doçura"; e desse doce afastamento, o desfecho único, aponta Jean Cocteau, é fazer de si mesmo nuvem...
Uma vez lá, me faço invasor. Temo o negro, mas entro na sala. A única fonte luminosa volta-se para o coelho, inicialmente protegido da visão do visitante pela pilastra que se faz anteparo ao olhar. É necessário uma aproximação. Passos vacilantes (como sempre são os deslocamentos no escuro); o breu não é total, é mera penunbra, suficiente para inquietar o andar.
Então eu o vejo. Já não me resta escapatória desse pequeno sistema patológico, tão compacto e perturbador. E a mim, pede-se que eu o suporte, que o aprecie, ou ao menos, que o veja. Mas não há nada a ver. Não a nada a saber, não há o que presenciar a não ser um ato de resistência, um gesto que se imobiliza, um movimento potencial. Algo vai acontecer, mas nada de fato acontece... a mim, só resta a abnegação moral e o embaraçar das pernas ao subir as escadas.
Luciana Paiva e Matias Monteiro
as crianças habitam os cantos: “Quantas narrativas de infância- se as narrativas de infância fossem sinceras- nos diriam que a criança, por falta de seu próprio quarto, vai amuar-se no seu canto”. Amuar-se no canto, fazer-se canto, ser paisagem: buscar um nome que se possa habitar. A casa é sempre uma busca. O conjunto de casas não constituí uma cidade; é antes uma constelação residencial.
a cama em sua carne
Então, uma cama atravessada por uma viga de concreto. Da cama, a cabeceira escura e sóbria. Da colcha branca, fina, quase poeira, a limpeza, a imaculação. A viga segura a cama em seu lugar junto à parede.
Entretanto, se uma cama, amantes, com certeza. Penso o que devem ter sentido estes amantes, esta viga descida do teto, tal qual um meteoro estranhamento geométrico – será? – ou nascida do chão de um apartamento semelhante a uma árvore: sem remorsos, sem arrependimentos ou hesitações, convicta de sua direção – o alto – sob a cama. Me pergunto então o que sentiram estes amantes: alívio diante desta separação definitiva na forma de um metro por um metro de concreto? Ou horror, surpresa, dor, enquanto a viga rasgava suas carnes fantasmas?Porque se trata, enfim, de amantes fantasmas, de um sangue ralo e espectral que não mancha a cama, de tendões e ossos de poeira que não ficaram presos na viga. Acho que se evaporaram. Acho que seus órgãos fantasmas se desfizeram, calmamente, docilmente, num adeus sem assombro. Talvez o que tenha finalmente morrido seja sua memória de fantasmas, que dormia naquela cama.
A cama mesma atravessada pela viga. Em sua existência prosaica de cama, em suas carnes.Eu sou uma pessoa das palavras (elas me possuem, sem escapatória). Mas me percebo devastada pelo impacto da imagem. À sua grandiosidade. Mesmo que esta grandiosidade me perca no momento exato do aprisionamento – me perca deste pertencimento até então inequívoco às palavras (que não é um pertencimento tranqüilo, mas é sempre uma garantia).‘Incomunicabilidade”… Este é um nome grande. Se não é comunicação, se não é troca, alguma coisa deve ser. Não pode não ser não nada. Podemos dizer que é, então, um transporte, um deslocamento. Um arremesso através do espaço. Um ato de lançar para longe de si, com certo asco. Mais Proust: diz Deleuze que os signos da arte são superiores à filosofia. A filosofia se apóia numa certa boa-vontade de pensamento, numa disposição consciente para a reflexão. A arte, não. Trata-se de uma imposição, não há escolha, não há escapatória, linha de fuga ou rota de saída. Não há portas de emergência.
Vendo, então, sua obra, me aconteceu um certo milagre. Minha memória de exposições, mostras, instalações é feita, essencialmente, de sensações de sufocamento, de falta de ar (não há rotas de fuga), uma certa paranóia em relação à esta ou aquela obra que quer me invadir.
Mas, então, eis que este movimento sofre uma inversão: se torna atração, magnetismo, tragagem. A mesmo força que expelia, seduz até a hipnose, o movimento de lançar para fora, quer trazer para dentro. Não houve esgotamento: eu poderia ficar horas e horas olhando para aquela cama e pensando naqueles amantes. Mesmo com tanto livros ao meu redor, eu só poderia olhar para aquela cama dilacerada.
Ana Janaina Souza









