Pero no puedo creer...
Ontem estava em pleno espaço. Pude ver um planeta etéreo, um gigante gasoso com um núcleo de diamante, sucumbir sob sua própria pressão; morrer e em seguida renascer como um pequeno sol, uma estrela ofuscante, uma cabeça de agulha. Uma gota tingindo o espaço em sua fusão dourada. Um novo sol para um novo mundo. Para novos mundos tropicais; talvez para redimir os velhos.
Segunda-feira eu vi um senhor lançado ao mar, repousar ereto sobre as águas, apoiado sobre o casco de uma tartaruga que remou em segurança até a margem mais próxima. Comovido com a generosidade quelônia, o senhor agradeceu o nobre gesto. A tartaruga o fitou com negros olhos compassivos e voltou a planar, em mergulho, as profundezas.
A inconfundível história do jovem amor genocida (I)
Seus movimentos tão sutis pareciam demonstrar uma cortesia estéril ou uma complacência dissimulada que a princípio o incomodaram; mas ele se rendeu logo que viu aquela luva branca tocar tão delicadamente o casaco preto, como um floco de neve pousando lentamente sobre um oceano negro, um gélido encontro entre duas maciezas. Dedilhou o tecido com lentidão, e assim que encontraram um ponto apoio preciso, içou-o de seu braço estendido como se a veste pairasse sob um sopro divinal. Ele teria a amado... sentia que seria capaz de amá-la. Não por seus sorrisos fictícios, por sua beleza neutra ou seus modos polidos... não, a teria amado apesar de tudo isso. Se a amasse, seria pela bela imagem de suas mãos emplumadas sobre o forro sintético e cintilante de seu casaco.
Mas, tão logo que ela pendurou o casaco em um gancho oportunamente próximo (passando suavemente a mão para que ele não abarrotasse e ficasse, assim, perfeitamente distribuído em sua flacidez), ela o fitou com um sorriso repugnante; um sorriso tolo, uma contração muscular que parecia involuntária, seus lábios comprimidos um contra o outro, seu olhar vítreo e submisso, o modo artificial com que seus cabelos pendiam como uma massa negra esculpida sobre sua cabeça, e, por fim, um pequeno suspiro de satisfação, um patético e triunfante sopro melódico de júbilo de asseio. Sim, tudo estava impecável, e ele já não amava mais.
clareira
Onde se sustenta a minha identidade? O que, ao cair, levá-la-á consigo?
Tantas são as vidas...
Tantas são as virtudes...
Não me enlutarei por nenhuma.
E esses olhos já não são mais os meus.
Desabafo de quem odeia guardar brinquedos...
A parte que mais gosto em qualquer trabalho é a montagem. Talvez por isso meus trabalhos, em geral, exigem que eu fique horas ou mesmo dias dedicado a atividades repetitivas e fisicamente desgastante. É como se de alguma forma eu me sabotasse, criando situação que me obrigam a prolongar indefinidamente a experiência da montagem. Há uma excitação, uma antecipação, uma improvisação que precede uma exposição e que, eu imagino, só deva se igualar ao burburim de uma coxia em dia de estréia. No caso de instalações essa experiência é ainda mais impressionante. Por mais que projetemos, desenhemos, façamos nossas plantas baixas e simulações, a instalação só acontece in loco. Por vezes nos deparamos com a certeza de que as coisas acontecem se nós permitimos que elas aconteçam.
Sim, a montagem é o ápice, tudo o que se segue parece uma obrigação; vernissage, divulgação, conversas sobre o que poderia ter sido e não foi.
Mas o pior é desmontar, recolhê-la. Lembro em uma das minhas primeiras exposições; levei um tecido preto para proteger as molduras e me vi abatido por um terrível sentimento de luto enquanto eu pousava aqueles pequenos cadáveres e os encobria. Ninguém jamais havia me dito nada sobre isso... fiquei irritado, alguém devia ter me avisado antes!
Desde então eu descobri que tendo a ficar impaciente ao desmontar obras. A montagem é um ótimo momento para ter companhia; alguém que possa dar um passo para trás e opinar, alguém que possa segurar um matéria quando você precisa de uma terceira mão, segurar a escada, conversar nas tarefas mais repetitivas, para compartilhar as descobertas, soluções e surpresas. Na desmontagem não se leva ninguém, a não ser que seja estritamente necessário. Sinto-me como uma criança que, sempre a contra-gosto, é obrigada a recolher seus brinquedos depois de uma brincadeira agradável. Os adultos só pedem isso as crianças porque esqueceram-se que foram crianças (o que é normal, não devemos culpá-los por isso); mas qualquer um que já tenha brincado com real compenetração, com paixão e dedicação, sabe que a brincadeira deve ser abandonada, nunca encerrada. O jogo tem que ser exaurido de todo seu encantamento, deve perder a graça, e ser deixado para lá. Não há agressão maior para a criança (poderemos mesmo levá-la as lágrimas de frustração) pois a forçamos, por meio de coação, a odiar seu joguete simplesmente por obrigá-la a conviver com ele além do devido, quando ela já não o suporta mais.
Ora, eu brinco de montar instalações, e é uma brincadeira exaustiva e séria, como são todas as brincadeiras que nós amamos. Deito por dias no carpete para espalhar folhas, passo meses urbanizando as paredes, anos amarrando minhas constelações, décadas escalando os tetos para suspender nuvens e milênios fixando gravitações no escuro... embalem os restos e devolvam-me quando estiverem satisfeitos.
FALL

FALL
I want to do a piece where I go to the alps and talk to a mountain. The mountain will talk of things which are necessary and always true, and I shall talk of things which are sometimes, accidentally true.
Quando criança, um velho livro de astronomia fora o suficiente. Decidi, aos 7 anos que queria ser astrônomo. Poderiam me perguntar: “porque não astronauta ?” (algum inquisidor de clichês pueris sem dúvida o faria, caso eu não tivesse tomado a precaução de, pela maior parte, manter minha convicção secreta). Ora, o espaço parecia-me muito hostil e, certamente, continha distâncias muito tediosas; além disso, um astrônomo razoavelmente aparelhado seria capaz, com seus dois pés fincados no chão, de contemplar aquilo que um astronauta jamais experimentaria. Com um simples folhear de páginas, eu estava nos grandes planetas gasosos de nosso sistema solar, nas superfícies rochosas e acidentadas dos asteróides, no luminescente rastro de um cometa apressado. Abandonava-me confortavelmente em uma poltrona reclinada no planetário e estava pronto para realizar minhas explorações intergalácticas. Embora houvesse empecilhos de ordem cognitiva naquele momento (por mais que tentasse não parecia ser capaz de conceber o infinito, dificuldade que, eu imaginava, seria resolvida a seu tempo), eu estava decidido: Sim, seria um astrônomo, e poderia ver o cosmos, e isso me bastaria.
Luciana propõe-nos que exercitemos essa capacidade de sonhar; revela-nos que “Uma série de olhares poderia ser tão sólida quanto qualquer coisa ou lugar (....)”[5]. Devolve-nos essa capacidade (tão valorizada por Baudelaire) de surpreendermos com o cotidiano e com o banal; e de ver estrelas, aonde quer que elas apareçam.
Resolvi postar um breve relato de minha rápida (porém intensa) estadia na paulistéia desvairada (conhecida também como sampa-city). Os que me conhecem sabem que fotos de viagem não fazem parte do meu repertório. Isso é um mal de família que por vezes me aflige, mas sempre prevalece. Mas vejam, alguns anos atrás eu resolvi escrever alguns momentos, desenhar imagens; ou seja, construir um relato (talvez mais intimista ou menos compromissado) de minha experiência de estrangeiro. Em São Paulo não foi diferente. Logo de cara deparamo-nos com uma árvore com flores-salmão que me encantou profundamente. O Paulo entendeu meu fascínio, e logo em seguida, depois de muito analisar, retirou um gravetinho com umas frutas secas e nos mostrou com curiosidade pueril: "olha isso!". Segue, então, meu breve relato:
O secador de roupas da área de serviço de frente a minha janela era circular e dançava ao vento sem parar.
Uma moça lia um livro sentada no metrô. Eu a observei com uma pontinha de cumplicidade, pois estava cansado. Lembro-me que uma vez sentei no chão do metrô e fui sumariamente repreendido; então minha cumplicidade abria espaço para uma pequena dose de admiração por sua audácia. Ela vestia um casaco azul, daqueles de gorro. Eu a observei por alguns momentos enquanto o metrô passava ao fundo. Quando finalmente ele partiu, revelou, em letras garrafais "PARAÍSO" em uma placa da exata cor do casaco da moça. Eu pensei: "daria uma belíssima cena de filme".
Um dia, fiquei um pouco mais para trás do grupo e cruzei com minha própria morte. Ao menos eu penso que era minha morte. Eu a olhei discretamente; ela me encarou com olhos escuros e profundos. Depois que ela passou não pude evitar olhar por cima do ombro para ter certeza de que não se tratava de uma alucinação. Virei-me a tempo de vê-la mimetizar meu movimento. Repetimos essa tímida e sincronizada troca de olhares por umas três vezes antes que minha morte sumisse na multidão. Não mencionei o ocorrido com nenhum dos presentes, mas foi um encontro horripilante.
Uma noite eu olhei pela janela e vários edifícios e um helicoptero cintilaram ao mesmo tempo. É como se São Paulo estivesse piscando para mim. Não pisquei de volta porque não me pareceu apropriado. São Paulo é uma cidade libertina.
Um homem tocou gaita no ônibus. Foi uma grata surpresa. Ele tomou a precaução de abafar o som com sua mão, o que só tornava a melodia mais precária e singela. As pessoas do ônibus o encaravam com olhares de censura. Ele finalmente parou de tocar e pudemos voltar a apreciar nossa sinfonia de buzinas em paz. Vi uma rua com a qual sonhei. Não sei se eu já a tinha visto antes (a não ser em sua versão onírica).
No bar haviam dizeres nos quais se lia "quem tem afeição, não tem razão". Na pista está escrito "Olhe".
Na volta sentei do lado de uma moça que ficou com medo do avião. Disse que em toda a sua vida só havia andado de avião duas vezes: uma para a Oceania e outra para pular de para-quedas (?!). Seu receio advinha do tamanho reduzido da aeronave, que lhe dava a impressão de uma insuportável vulnerabilidade. Ela disse que um dia teria maiores instruções de salto, e viajaria sempre com seu próprio para-quedas. Eu ri.
Observei Diana adormecida. Era uma escultura enorme, voluptuosa da deusa com seu arco posto e com uma meia-lua em sua fronte. Me senti o maior dos hereges e um pavor milenar se apossou de mim por apenas imaginar que seu olhar poderia voltar-se sobre mim. Essa é uma deusa que não tem piedade com voyeurs.
How to make people care (when they don’t give a damn)?
Comprei um livro no sebo essa semana. Ele era tão diminuto, precário, velho e ingênuo que não pude abandoná-lo lá. Se chama l’homme a l’espace (assim, tudo no minúsculo) e pertence a minha memória. Um pequeno compendio de astronomia. Folhei avidamente suas constelações, suas galáxias, seus cometas. Somos grandes amigos agora e desse encontro tão casual e tão impactante surgiu uma imagem. Uma imagem que estou pronto a compartilhar na primeira oportunidade.
Uma aluna uma vez escreveu acerca dos materiais empregados em seu trabalho “papel, tinta... e boas intenções”. Façamos, portanto, da imagem um exercício de boa fé. Deixemos a mesquinhez da má fé e da desconfiança para as pequenezas do mundo. Mergulhemos na singeleza das coisas, pois as coisas nos são ofertadas em sua profundidade. Habitar apenas a superfície das coisas requer um esforço contínuo, um ceticismo avarento tal qual fechar os olhos requer a contração das pálpebras (talvez por isso tantos cegos caminhem com seus olhos abertos, para intuitivamente pouparem-se de esforços infrutíferos). O radical hoje é a afetividade, permitir-se ser afetado por algo é quase uma subversão.
Do rastro daqueles que nos ensinam a sonhar com horizontes mais amplos, um fio de estrelas tece nosso caminho. Para onde? Para algum momento em que sonhar já não seja uma ousadia...
É engraçado como nós estamos sempre construindo universos que possamos habitar, buscando a ergonomia correta de nossos sonhos, produzindo um léxico próprio... é um processo, um aprendizado, uma forma de estar no mundo, de estar um pouco mais disponível.
Ás vezes parece haver um censo de aleatoriedade na arte. As pessoas se queixam disso com regularidade; com muita facilidade se frustram e não sabem mais como lidar com a frustração. Tornam-se hostis. Acho que elas tem essa sensação quanto ao mundo em que vivem; os acontecimento se desencadeiam e se esfacelam antes mesmo que possamos organizá-los em um discurso coerente; antes mesmo que possamos impor-lhes alguma espécie de narratividade. Não se pode mais ser ingênuo; nosso mundo não tolera tolices... Cocteau já dizia que o século XX seria conhecido como o século da impaciência, pois a mais honesta repetição ou a mais sutil demanda nos enerva.
Mas, por vezes, nosso olhar nos trai.: Vejo uma falha entre as espessas nuvens de chuva. Lá no alto eu vejo um céu azul, uma nuvem branca, uma tarde ensolarada omitida pela massa cinza que se descortina por um instante. Ao descer um pouco o olhar, vejo as luzes acesas nos apartamentos, resistindo bravamente contra a sombra nublada e chuvosa. Cada luz é de uma cor, e elas parecem descrever uma palheta organizada de forma tão lúdica, mas não exatamente casual... cada um tem o céu que lhe convém.
